
stay, don’t stray
Eu sei que eu era feliz e não sabia, mas muita coisa da minha infância e adolescência eu fiz questão de esquecer. Não, eu não sofria bullying direto e reto, mas digamos que eu sempre dei um jeito de complicar as coisas para mim mesma, desconfiando da minha capacidade e me mantendo insegura para o que quer que fosse.
Aí de muitos eventos lembro-me muito bem de uma ocasião interessante, em que podia ter dado o meu primeiro beijo e ter me “equiparado” a algumas amigas e ter sido pioneira diante de outras, mas deixei passar.
Eu tinha mudado de colégio mas ainda era amiga das pessoas da escola antiga, então fui até uma festa de uma colega no início do ano (era começo de março, sei bem) rever os colegas, tomar refrigerante e comer coxinha (nunca fui do brigadeiro).
Com o sonzinho armado na garagem, todo mundo dançava e se divertia. Veio a tal “música lenta” e veio o momento de dançar com o menino que eu gostava e que, por um milagre, eu tinha descoberto que gostava de mim também. E agora sim você entende porque eu fui na festa do colégio antigo também.
Entre o vai e vem da vassoura, dancei com o rapaz com o braço esticado, há dois metros de distância com folga, fazendo de conta que ninguém sabia de nada.
Quando acabou a brincadeira, alguém pôs o fim no suplício soltando uma “música de balada”, mas foi aí que vieram me dar o recado: “fulaninho quer ficar com você! Você vai ficar com o fulaninho, né????”.
Tremi, congelei, me arrependi de ter nascido três vezes e entrei dentro do quartinho da garagem da minha colega. Ao lado de várias meninas que já não eram BVs, ouvi conselhos como “você gosta dele e ele gosta de você, vai em frente!” e continuei imóvel.
Foi a maior cena de desenho, várias cabeças falavam comigo, eu não ouvia nada e tudo se misturava. Eu lembrava, sei lá, da minha cama cheia de pelúcias em casa. Num desespero sem tamanho, dei um berro, chorando “eu não tô preparada!” e desabei.
Não precisei falar mais nada nem me constranger ainda mais, mil mensageiros fizeram o serviço e o menino, daí sim tímido, ficou na dele até o fim da festa. O melhor amigo dele (compreensivo e maduro demais pra idade) veio saber se estava tudo bem comigo e me trouxe refrigerante gelado.
Passados bons doze anos dessa cena, às vezes a vida adulta só me dá vontade de poder entrar no banheiro mais próximo com mil conselheiras se acotovelando do meu lado, daí eu grito “quero sumir” e sou ouvida e acolhida enquanto todos os meus problemas são resolvidos e o amigo gay traz uma cerveja gelada.
Será que algum dia vamos estar preparados? É, eu era feliz e não sabia.