No que você acredita?

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Sempre que temos um probleminha, adoramos dar uma olhadinha no nosso destino, dar aquela consultada num guru ou checar algum tipo de guia sobrenatural que possa nos trazer respostas concretas para um futuro nada paupável. Eu sou assim, você é assim, a humanidade é assim. Eu posso decidir ler as cartas do tarot, você pode ter aquela curiosidade súbita de ver o que diz o horóscopo do jornalzinho do metrô e a humanidade toda pode decidir que a nova religião da vez é alguma do centro-oeste da Micronésia, fundada por virgens santificadas. É.

Em tempos de Obama, crise econômica, gripe suína e início de ano (faz tempo!), nada como dar aquela checadinha no destino pra ver como as coisas vão funcionar daqui pra frente. Mapa astral, tarot, resolver cuidar mais do seu lado espiritual. Por mais balela que seja (e isso vale tanto para os céticos quanto para os ateus), um pouquinho de crença nunca faz mal a ninguém. Ela pode até não ajudar, mas provavelmente não atrapalha.

Versailles

Li a bobeirada do “O Segredo” no meio do boom do livro e, em meio aos exageros, o lance de  “ter fé” faz todo o sentido. Tenha fé no que for, mas isso vai te fazer bem, de alguma forma, nem que seja ter fé numa cueca da sorte em final do campeonato. O importante mesmo é levar o livro na boa, sem encará-lo como bíblia, porque, enfim, quem vai mesmo receber cheques pelo correio, né?

Eu lembro da mãe de um amigo meu que teve câncer um tempo antes de eu conhecê-los. Ela já estava recuperada, aparentemente feliz, mas não era o tipo de mulher que se cuidava. Parecia passar seus dias virando páginas do calendário. Lembro-me mais do que ele me disse: quando ela ficou doente e internada, o momento foi absolutamente triste, porque ela nunca acreditou em absolutamente nada, nunca teve religão, muito menos a família. E assim se mantiveram todos, mesmo depois da mulher estar curada.

Cada um escolhe o que quer para si obviamente, mas às vezes vejo que essas pequenas ciências da adivinhação e crenças diversas estão aí pra facilitar a nossa vida. Algumas são verdadeiras, outras nem tanto, mas quem nunca leu o horóscopo, que atire a primeira pedra. Quem nunca resolveu orar para um ente querido adoentado, pode atirar também.

Alguns dizem que tarot, búzios e companhia limitada são pura bobagem, engana-trouxa, caça-níqueis. É claro que você não é obrigado a aderir a qualquer tipo de magia da adivinhação (longe disso, por favor!), mas nessas horas eu me lembro de outro conhecido meu, que foi tirar o tarot no mesmo dia que eu tirei e passou 3 horas conversando com a moça. Isso porque ele não acreditava e “estava tudo batendo”… Então imagina só se ele acreditasse?!

O ruim é que nem sempre essas coisas nos oferecem previsões otimistas. Às vezes aquela linha do jornal te faz ficar em “constante atenção a uma traição, provavelmente por parte de alguém de signo de terra do sexo feminino”. Ao ler isso, qualquer cabeça mais desocupada começa a maquinar os nomes de todas as fêmeas dos signos de touro, virgem e capricórnio para assim poder se preparar ao longo do dia.

O fato é que nós não sabemos lidar com o desconhecido, temos ânsia do amanhã, temos pressa por realizações que talvez nunca virão, e confirmar se você vai ganhar aquela fézinha que fez na semana passada às vezes é uma tentação. O único problema é a chamada profecia auto-cumprida, que também tem a versão “praga de mãe” e acaba alterando seu próprio futuro previsto por algum oráculo. Sabe quando mãe (ou qualquer outra pessoa em quem você confie ou acredite, inclusive um “guru”) te diz algo que te marca, algo como “você nunca vai dar certo nisso mesmo!” ou “você vai ficar milionário!”, e isso fica gravado aí na sua cabecinha? Pois é.

Pode acreditar que cada sílaba das frases têm efeito sobre você. Você tenta ignorar, mas no fundo pensa que tem de fazer algo para mudar a “praga”, ou então acaba relaxando, já que “vai ficar milionário”, e aí, adivinhe? Você trabalha menos e milionário não será. Este é um lance complicado e tem a versão religiosa também (“porque Deus quis/não quis”), tanto que muita gente aconselha que depois de tirar as cartas, por exemplo, o melhor é esquecer as previsões, já que ficar procurando seu futuro a cada minuto do seu dia não vai levar a nada, ou mesmo porque o tarot é um reflexo do que você é hoje. Ou seja? Se você for afetado pela leitura do próprio destino, suas atitudes irão mudar, o que gera a necessidade de ler todas as cartas outra vez. Confuso, não? Agora se a sua praia for religião, é bastante provável que te aconselhem a orar e meditar ao seu Deus, mas manter o coração tranqüilo. O ideal e saudável, certo?

Acreditando ou não em bola de cristal, em milagre divino, em ambos ou em nada disso, você deve saber que essa perturbação diante do futuro (do pós-morte, de onde viemos, para onde vamos?) é ridiculamente humana, e eu, na verdade, adoraria pensar que olho-gordo e horóscopo são mentira, mas por que raios mesmo é que essas coisas têm de funcionar nos dias pares e não fazer sentigo algum nos dias ímpares? Por que tem horas que a ciência não explica?

É, tenham fé. Acreditem, sei lá, no “universo”, em vocês mesmos (principalmente!), em alguma coisa, num Deus e façam o que tem de fazer. A vida será mais fácil, ou pelo menos mais divertida – isso se ela não se tornar realmente diferente!
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Posso ter falado um punhado de bobagens, inclusive desculpem-me a conclusão confusa, mas ando pensando muito sobre isso e quis compartilhar. E vocês, acreditam em alguma coisa?