Por que você aceitou ser enganado pelo Instagram?

qua

Neste início de semana, uma história não saiu do meu feed por um segundo sequer: a “incrível” jornada da modelo que descobriu que estava levando uma vida artificial e vazia por concentrar todos seus esforços em ser bonita e compartilhar belas imagens no Instagram. Poderia ser um conto de ‘pobre menina rica’ do terceiro milênio, mas é verdade.

essena_1

Essena Ou’Neill, a youtuber e musa do Instagram que pôs na roda o que todo mundo já sabia

Essena Ou’Neill tem algumas centenas de milhares de seguidores, fotos perfeitamente editadas seguindo um padrão e certamente alguns dinheiros a mais na conta e roupas no armário graças ao sucesso na rede. Um belo dia surtou, fez a limpa no perfil e começou a editar as legendas das fotos sobreviventes para jogar umas verdades do quanto sofria na cara da sociedade. Que dó. Essa mesma ‘sociedade’ que só sabe comentar #sdv, #first, #squadgoals e bobagens do gênero.

Em sua inocência, Essena não tinha percebido ainda que as redes sociais são apenas um recorte do melhor que temos (ou do que achamos que temos) para o mundo. Com mais uma dose cavalar de inocência, ela também não percebeu que muita gente pelo mundo é incapaz de se amar do jeito que é e que adoraria ser como ela. Com uma dose de ganância, ela também fez de tudo para dar o que o público quis e esqueceu dela mesma. Talvez tenha faltado encarar isso como o trabalho que é (era). Talvez ela nem tenha maturidade pra isso. Talvez com menos plateia as coisas tivessem sido diferentes.

Nosso Instagram virou um livro de recordações. Eu, você e todos nós gostamos de guardar momentos e lembranças. Adoramos abrir álbuns com fotos lindas. Alguns, inclusive, viajam até tendo a fotografia como prioridade número 1. Ao invés de curtir o museu, o restaurante, o passeio e a neve, se não fotografou, não esteve lá. Registrar é preciso porque se lembrar é importante. Mas… Nem todo registro é importante de ser lembrado. Algumas coisas doem quando voltam à tona. Outras aliviam e fazem a gente se sentir bem. A diferença é que agora tudo é feito publicamente.

Por outro lado, na gloriosa vida real ninguém mostraria um álbum de fotos horríveis e tristes para os amigos, não é mesmo? Então por que faria isso num perfil público de imagens, com acesso liberado para o mundo inteiro? Cada um, a seu modo, escolhe, edita e compartilha ali somente o que faz bem. E, claro, também vamos seguir, curtir e compartilhar aquilo que, de algum modo, faz bem e enche os olhos. Mesmo que isso também possa nos fazer mal.

O que a ‘musa do instagram’ apagou deste causo todo não foi sua própria essência – que ela procure por isso, aliás. Mas alguém avisa por favor que pode demorar uma vida toda -, mas sim seu desejo de agradar um público que, ao mesmo tempo em que é ácido e mal educado, é pouco questionador. Ofensa é diferente de crítica que, por sua vez, é diferente de questionamento.

Qualquer perfil popular no Instagram é um fórum de salve-se quem puder, só que um pouco menos deep que a deep web. Tem propaganda de loja, jogo de hashtag e #sdv. Uns arranjam briga, fazem fofocas e xingam o dono da foto ao menor sinal de celulite ou unha sem fazer. Outros acreditam piamente que tudo aquilo é verdade, a ponto de engolir sacos de “farinha seca barriga” sem saber se aquilo é um veneno enlatado e se a foto é uma mentira que qualquer um fabricaria no Photoshop se fosse ser tão julgado assim. Vários outros, por fim, são incapazes de ler além da segunda linha – o que torna toda essa história da Essena uma grande perda de tempo. Aliás, se você chegou neste texto até aqui, parabéns. Você é a minoria.

essena2

“o que eu comi hoje”: ver isso vai fazer você se sentir melhor com o que comeu?

Guardadas as devidas proporções, somos sim todos um pouco da musinha Essena. A primeira selfie nunca é a última selfie. A edição sempre vai estar lá. O melhor ângulo faz toda a diferença para postar uma imagem legal para a ‘galerinha do feice’. Um momento legal fica, sim, sem post porque o registro ficou horrível demais para o resto do mundo ver. E já achamos isso normal.

Por outro lado, somos também a galerinha que briga, faz propaganda e dá like nas fotos da moça – e de qualquer outra moça ou moço que possa aparecer. Somos essas pessoas porque escolhemos compactuar com uma mentira tão óbvia e ululante quanto um filtro preto e branco num mundo colorido, só porque é lindo e o lindo nos faz bem. Só porque é estiloso, moderno, orgânico, contemporâneo, ciclístico – insira seu adjetivo aqui.

Mas por que caímos nesse conto? Por que damos votos de popularidade para uma pessoa que revela ter ficado em jejum para poder ser digna do seu coraçãozinho? Eu digo: se idolatramos uma musa que não tem essência, sinal de que a nossa também não está em alta.

ps: faça-se um favor e distribua uma rodada de unfollows. Faz bem.

Comentários via Facebook

14 comentários

  1. Paula

    Será que ela não sabia mesmo que isso é um trabalho? É muita inocência né… eu acho que é jogada de marketing isso aí!
    Apesar que olhando os comentários no instagram das Tacieles da vida, vejo que tem muita menininha que não percebe que quase tudo nas fotos é uma propaganda…

    Responder
    1. Fernanda Pineda

      Eu acho, Paula, que ela começou a se cobrar a ser na vida pessoal o que ela é nas fotos. Esse que é o maior problema. E as pessoas REALMENTE não sabem que tem muita publicidade. Não é só influenciador de lifestyle, não. Todos os grandes canais nerds, por exemplo, não publicam um vídeo se não tiver doce na boca. Nenhum sinaliza. NENHUM. As pessoas apontam dedo pras blogueiras de ‘muóda’, mas dos males são o menor. Elas pelo menos sinalizam alguma coisa. Tem outros que o público simplesmente não faz ideia. Aí todo mundo faz um conteúdo puxa-saco e pasteurizado e tá tudo certo.

      Responder
  2. Jéssica Souza

    Tem hora que a Internet faz um fuzuê tão exagerado numas coisas, que vou te contar!
    Se ela acha isso, porque simplesmente não exclui tudo e foi para as montanhas? Não, ela quis mais ibope e agora, depois desse buzz todo, ficou conhecida pelo mundialmente. Pra mim, ela queria exatamente isso. E agora o seu novo projeto, lógico, vai bombar loucamente, porque agora todo mundo pensa exatamente igual a ela.
    Como a Lu, Chata de Galocha, disse: não são as redes sociais que são falsas, é você mesmo e o SEU feed. Ela que criou esse mundo falso.

    Responder
    1. Aline

      Gente, tá faltando sororidade no feminismo de vcs.
      Ela era uma criança. Tinha 15 anos qndo começou. Ela não mudou “para aparecer”. Como no texto mesmo disse: ela foi inocente.
      Vcs estão falando do msm jeito que um machistinha fala que mulher que usa roupa curta/decotada está querendo chamar atenção, ou seja “TÁ PEDIIINNNDOO” (justificando abusos)! Pfv!
      A internet é fake msm. Nós só postamos as coisas legais sim. Mas nem todo mundo tem essa consciência, e são enganadas sim. Esta “revolução” foi a gota d’água pra ela. Às vezes precisamos fazer estas “revoluções” para nós mesmos, não para os outros.
      Nos vídeos dela (se é q vcs se deram o trabalho de ver), ela fala que vai mudar radicalmente: usar mais marcas com consciência ambiental, e começou um novo site com este foco, para mudar esta visão consumista da sociedade. Ela quer fazer a parte dela. Quer transformar o planeta. Não entendo pq rebaixar ela por causa disso. O que ela está fazendo é muito corajoso.

      Responder
  3. Maki

    Fê, concordo com o que você falou. E sabe do que mais? Acho muito curioso como as pessoas sempre jogam a culpa na ‘sociedade’, nas ‘redes sociais’, quando são elas que criam o conteúdo que continua alimentando isso tudo. Realmente, ela pode ter se perdido estabelecendo um padrão tão alto que não soube diferenciar a vida pessoal da profissional, e talvez ela não seja matura o suficiente pra entender essa diferença, mas poderia ser mais produtivo se ela buscasse por si independente disso. O trabalho com certeza refletiria essa mudança.

    Responder
  4. Mari

    Eu fiquei fascinada com a história dessa menina. Entendo a questão da inocência, mas, pelo que li nos relatos dela, a coisa degringolou por causa da mensagem que ela estava passando e com a qual não concordava. Diversas vezes ela fala que não vê nada de errado em fazer publi ou parcerias com marcas, mas que ela, particularmente, não queria mais porque não acreditava no que estava fazendo. Ela é (ou virou, não sei) vegetariana, se lamentou em várias imagens em que aparece comendo qualquer coisa de origem animal e fala muito de consumismo. Na verdade, nem acho que ela seja tão inocente assim. ;-)

    Responder
    1. Fernanda Pineda

      Ah, Mari, eu acho que ela era de fato imatura quando começou e não soube lidar com o sucesso. Mas meu ponto nem é este aqui no texto, ela é o de menos, porque casos assim vão acontecer cada vez mais com a saturação que temos de informação. A questão é: por que as pessoas acreditam em tantas mentiras, quando até o que elas mesmas fazem é ‘falso’? Ou no mínimo editado, sabe?

      Me lembro daquela tag do ‘stopthebeautymadness’, em que todo mundo deveria ter postado fotos sem maquiagem. Deveria, claro, porque estava cheio de meninas com a pele feita. Pra que isso? Pra você ser mais perfeita que a coleguinha? Pra mentir pra si mesma? E o pior, nos comentários as pessoas compram a ideia. Eu acho bem perigoso esse jeitão internet de ser, que é ácido e joga todo mundo no mesmo balaio, mas ao mesmo tempo não questiona porra nenhuma do que lê.

      Responder
  5. Thais Nascimento

    Vim do snap! xD ahah mentira, sempre passo aqui.. E concordo, esse bafafá todo que o suicídio virtual da menina está causando fala mais sobre os followers do que sobre “a indústria da social media”.

    Responder
  6. Raquel Arellano

    Essa menina, assim como tantas outras, está crescendo em um mundo totalmente inserido no universo 2.0. Tudo é share, é like, é praticamente pros outros. No caso dela, que acabou sendo assediada profissionalmente, com tantas parcerias e contratos, a coisa desanda ainda mais. É muito difícil não se deixar consumir, ainda mais tão cedo. Vamos lembrar que ela tem 19 anos, né?

    Acho interessante o breakdown dela, mais pelo significado da coisa toda, de querer ser ela mesma, sem amarras, mas obviamente a gente começa a questionar coisas como “poxa mas ela não sabia?”. A gente no fundo sabe mas não quer pensar. Quando percebe, já perdeu a essência. O mesmo vale para artistas e rock stars.

    Ótimo post, Fer! <3

    Responder
  7. Pamela

    Não tinha lido esse post ainda, mas pra variar, você arrasou! Sério, eu perco meu tempo lendo comentários nos videos das gigantes do YouTube e é uma criancice sem tamanho! E pior, os novinhos ficam brigando entre eles enquanto a dona do canal não sabe nem que eles existem.

    Depois que surgiu o “troco elogios”, sinceramente perdi a fé na humanidade! auheuaheuhauehuahe

    Responder
  8. Smithg388

    reverse phone lookup cell free I wish to voice my gratitude for your generosity giving support to individuals decgdebcdfdfkedb

    Responder
  9. Pharmg544

    Hello!

    Responder
  10. Smithd794

    Hi, Neat post. There’s a problem with your site in internet explorer, would test this IE still is the market leader and a good portion of people will miss your excellent writing because of this problem. bkkfekdddeakkdeg

    Responder

Deixe seu comentário