“Life is strange”: um jogo embrulhado para presente

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Não é impressão sua, não é engano da garotinha fã de quadrinhos, nem implicância das mulheres do mundo do entretenimento: aparentemente, em pleno 2015, somos frequentemente esquecidas de papeis de destaque ou não somos vistas como interessantes o suficiente para mover uma história.

No Globo de Ouro, a questão veio à tona mais uma vez quando Amy Poehler e Tina Fey deram aquela cutucadinha básica no mercado e comentaram que um dos únicos papeis interessantes para mulheres mais velhas foi o da premiada Patricia Arquette em “Boyhood”. E as duas não estão erradas em causar essa “saia justa” em frente aos poderosos da indústria: uma pesquisa da Universidade de San Diego deixa bem claro o quanto a catraca de Hollywood não está virando para as mulheres, mesmo com filmes bem-sucedidos tendo elas (nós) como protagonistas. Exemplos rápidos: “Jogos Vorazes”, “Malévola” e o fenômeno “Frozen”.

No mundo dos games, a situação começa a ficar (ainda mais) periclitante. Apesar de já sermos, só no Brasil, pelo menos 47% do público gamer, não há um dia sequer em que eu não leia o relato de alguma garota que sofreu algum tipo de preconceito simplesmente por querer jogar e se divertir. Ou seja: além de não sermos representadas e de não termos praticamente nenhum marketing voltado para nós, ainda somos alvo de críticas e objetificações o tempo todo.

Dito isso, quando me sentei para jogar o primeiro episódio de “Life Is Strange” no último sábado me senti aliviada. Até presenteada, para ser mais exata.

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Produzido pela Square Enix, mesmo estúdio responsável por “Tomb Raider”, o jogo “Life is Strange” vem dividido por episódios e conta a história de uma adolescente chamada Max. Depois de mudar de cidade e escola para abraçar sua paixão pela fotografia, a garota acaba enfrentando uma série de dificuldades para se enturmar e arranja confusões compulsoriamente por onde passa.

Num desses momentos, ela descobre a improvável habilidade de manipular o tempo e de, portanto, fazer novas escolhas. Seus “poderes” especiais permitem que ela dê a volta por cima, seja herói por um dia (ou vários) e tente descobrir um mistério ao lado de sua melhor amiga da infância.

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Max, a superfodona movedora do tempo, e a encrencada melhor amiga, Chloe

Como estamos falando de adolescentes num ambiente escolar, é claro que a trama deixa espaço para briguinhas entre alunos, dramas juvenis e questionamentos dignos de nota num diário,  mas as personagens são tão complexas e interessantes que, serem mulheres, afinal, é só a cerejinha do bolo. Enquanto muitos jogos reduzem a personalidade de uma mulher ao simples fato dela ser, enfim, uma mulher, a Max é uma protagonista e tanto antes de qualquer coisa. E, ah: até o final do primeiro episódio, ela também deixa claro que não precisa de nenhum interesse romântico para se motivar. Que coisa maravilhosa!

Nessa grande salada mista, você também vai se questionar bastante sobre quais escolhas deve fazer e pode acabar indo e voltando no tempo várias vezes até decidir o caminho ideal. As mecânicas são simples e facilitam a vida dos indecisos: você pode avançar todo diálogo repetido para tomar uma nova decisão, mas o que escolher terá impacto no futuro. Ao final da temporada, as estatísticas mostram o que outros jogadores fizeram ao longo do jogo (adoro esses dados, até para descobrir possibilidades que passaram despercebidas! rs).

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Para completar, a plástica também está a altura do roteiro. O jogo é realmente lindo e tem uma trilha sonora absolutamente envolvente. Você pode ouvir as faixas logo abaixo para entrar no clima melancólico do mundo de Max – sim, tem Angus & Julia Stone!

O primeiro episódio está disponível para download para PC, PS3, PS4, Xbox 360 e Xbox One, assim como o season pass para os próximos episódios; serão 5 ao todo e o próximo estará disponível apenas em março. Senta na curiosidade e espera! rs  

“Life is Strange” é um respiro e mais uma lanterninha no fim do túnel para quem acredita que as mudanças estão demorando demais para acontecer. São baby steps, são filmes alternativos, são jogos alternativos, mas eles estão aqui e precisam ter a atenção que merecem para que a mudança continue a acontecer.

Se você, mulher ou homem, concorda que precisamos de uma representação no mínimo mais justa, dê uma chance. Na pior das hipóteses, você vai se divertir. ;)

ps: Para quem se interessa pelo tema, falei justamente sobre preconceito no mundo gamer lá na Campus Party; dá para ver aqui.

ps2: esta semana o Grammy também abriu espaço, de um jeito meio torto, para falar sobre violência contra a mulher. Mais aqui.

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2 comentários

  1. ?M.M.M?

    Comentário:Eu até que queria ter esse jogo no meu celular…

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