Fazer amigos na vida adulta: é possível?

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Você acredita que é possível fazer amigos depois dos vinte? Depois do trinta? Depois de já ter a vida feita e as contas pagas? Talvez isso muita gente não tenha nunca, mas talvez também não tenha amigos conquistados depois de uma certa idade. E por “amigo”, entenda, não estou falando de contatos para te indicar uma vaga de emprego, dar dicas de viagem ou fofocar & curtir no happy hour da firma – embora tudo isso aí seja super bom.

Estou falando aqui de alguém para ligar numa emergência, alguém para bancar a baby sitter do seu gato enquanto você viaja ou até, sei lá, batizar seu filho na igreja. Você conheceu alguém para quem delegaria alguma destas três tarefas depois de ter terminado a faculdade, essa grande última chance da raça humana para fazer amigos? Então você é uma exceção – ou vai se decepcionar em breve. Desculpa, mas alguém tinha que avisar.

Já imagino muitos dedos apontados para mim neste terceiro parágrafo, mas só no BBB amizades verdadeiras 4ever são feitas entre adultos sem grandes questionamentos ou requisição de antecedentes criminais. Para quem pensa que isso é babaquice, não sou só eu e minhas travas sociais que têm certeza da absoluta dificuldade de fazer amigos na vidinha adulta. O tópico está cheio de resultados no mestre Google.

Milhares de artigos se debruçam com fervor sobre o tema, mas foi difícil encontrar algo que respondesse o porquê. Com alguns cliques inclusive, encontra-se até guias ilustrados sobre como fazer amigos depois de adulto, uma coisa assim bem didática e vergonhosa. Clique por sua conta e risco para ver um manual de como se tornar um freak que tenta fazer amigos num clube do livro ou numa loja de pesca. Não sei, mas só desconfio que aquele manual de como ser uma gótica suave deve dar resultados mais concretos.

Agora veja como são as ironias da vida. Todas as dicas para fazer amigos novos servem também para conhecer gente com objetivos românticos. Isso significa simplesmente que, depois de uma certa idade, somos reféns do sexo como objetivo final de relacionamento. Veja, você poderia fazer amigos na balada, mas a tradição diz que lá é lugar para conhecer gente para ir para cama, certo? O contrário já não vale: você poderia transar com o vizinho da casa onde cresceu, mas se vocês se falam até hoje e não são inimigos ou casados, é bem provável que sejam amigos-quase-irmãos e já tenham superado essa questão.

O que acontece é que você segue a dica da inscrição no curso de jardinagem para conhecer alguém com interesse em comum e acaba, por exemplo, odiando todo mundo e tendo que adicionar no Facebook uma pessoa menos pior que vai te paquerar para todo o sempre. E você vai empurrá-la para a “friend zone”, porque, afinal, precisava de um amigo desde o princípio. Não é aquele amigo-amiiiigo, mas é o que tem pra hoje. Torcendo agora para não ser daqueles que mandam corrente no Whatsapp.

No grande fórum (quase científico) Reddit, a pergunta “por que é tão difícil fazer amigos na vida adulta?” tem mais de 7 mil comentários e foi onde encontrei a solução que me satisfez.

“As external conditions change, it becomes tougher to meet the three conditions that sociologists since the 50’s have considered crucial to making close friends: proximity; repeated, unplanned interactions; and a setting that encourages people to let their guard down and confide in each other.”

O trecho é de um artigo do New York Times e resume os ingredientes necessários para uma amizade quentinha acontecer. Em tradução livre: “Como as condições externas mudam, se torna cada vez mais difícil encontrar três condições que os sociólogos desde os anos 1950 consideram cruciais para fazer amigos íntimos: proximidade; repetição; interações não planejadas e um ambiente que encoraje as pessoas a abaixarem a guarda e confiarem uma na outra”.

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Proximidade, repetição e interação não planejada num ambiente livre de pressões: tá explicado porque você fez grandes amigos no prédio, na escola e até no cursinho de inglês da adolescência, mas não tanto na faculdade e menos ainda no trabalho. A proximidade e a repetição não são um problema, mas e os outros últimos dois elementos?
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Nessa fase da vida, vou usar o termo técnico, me diga quem tem tempo para “interações não planejadas”?! Marcar uma cervejinha com o amigo da faculdade um ano depois da graduação é um perrengue sem fim. Dois anos depois é impossível. Três anos depois é caso perdido. E o que dizer do “ambiente livre de pressões”? Dá para fazer amigão íntimo num ambiente competitivo ou numa empresa em crise? Você já sabe a resposta.

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A verdade, enfim, é que a tarefa é difícílima e não dá para resumir a questão com o tradicional conselho “você precisa se abrir mais”. Já é bastante complicado se libertar de todos os pré-julgamentos acumulados em anos de vida, imagine então recriar o ambiente tranqüilo e frutífero de um parquinho infantil…! Amigos de infância, aliás, estes que podem ficar anos sem se falar mas encaram com total naturalidade um pedido de ajuda, um convite para casamento ou para participar de outros momentos importantes da vida – tipo o batizado de um bebê.

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Os felizardos que encontraram alguém para ser fiador do apê dos sonhos na baia vizinha no escritório são exceções maravilhosas. Enquanto isso, a regra da dificuldade continua valendo. Se há alguma vantagem nisso tudo é, sei lá, vai que você encontra o amor da sua vida?! Só não vai me dizer que era a pessoa certa na hora errada, tá? Não dificulta!

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6 comentários

  1. Paula Cipriani

    Eu acho que tenho facilidade em fazer novos amigos, que não acho a parte mais difícil. Difícil é manter as amizades, conseguir fazer algo juntos, vejo bastante dificuldade nessa parte. E nos últimos 3 anos da minha vida foi onde me vi fazendo mais amigos. Seja na faculdade, trabalho, internet, amigos em comum, até em festas.
    Vem muito da nossa parte de ser aberto, e dos outros também, claro. Mas certos ambientes proporcionam isso mais facilmente.

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  2. lari

    Eu acho que a questão do tempo é o mais complicado. As redes sociais acabam se tornando o ambiente onde ” encontros imprevistos” acontecem. Mas o hábito de conversar online também pode ser um problema quando (meu caso), você não gosta muito de ficar batendo papo no chat do Facebook.
    Além de ter feito poucas amizades na vida adulta, as que eu mantenho são exatamente aquelas com pessoas que sabem se dedicar muito bem as relações interpessoais. Quando me deparo com alguém como eu, que também prefere o cara-a-cara e esquece de entrar em contato com os outros via online, a amizade, mesmo cheia de interesses em comum e muita confiança, acaba ficando presa num tipo de “limbo”, cheia de carinho, com muita saudade, mas estranhamente distante :/

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  3. Ana

    Interessante o texto. Sempre tive dificuldade em me aproximar das pessoas e quando as encontro, geralmente a coisa trava justamente nos pré-julgamentos, no casada x solteira, com filhos x sem filhos, até mesmo no sou nerd x sou fofa… De verdade, foi o texto mais realista que encontrei até o momento.

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