Linda, isso não faz parte

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Eu não ia escrever nada. Muita gente escreveu, tantas boas respostas foram dadas, tanta repetição do tema… Mas resolvi escrever. Resolvi escrever porque já passei por muitas, já passei por poucas e nada boas situações, mas que foram essenciais para que eu soubesse o quanto este assunto precisa ser falado. E repetido. Quem sabe um dia, compreendido de uma vez por todas.

A pesquisa “Chega de Fiu, Fiu” levantou alguns dados sobre como mulheres se sentem ao ouvirem ‘cantadas’ nas ruas. Desde o suposto inofensivo “linda” até o degradante “te chupo toda”, a coisa ganha vertentes sem fim. O fato é que mais da esmagadora maioria das mulheres não quer ser incomodada com nenhum tipo de opinião não requisitada. Com nenhuma opinião gritada na rua. Com nenhum comentário capaz de fazê-la se sentir envergonhada publicamente.


Logo que o resultado da pesquisa saiu e começou a ser divulgado nas redes sociais e em grandes veículos da imprensa, surgiram os primeiros grandes enganos: homens se diziam, coitados, perdidos. Não sabiam mais agora como abordar uma mulher. E até algumas poucas mulheres, de forma bastante curiosa, sentiam que iam sair perdendo com esse tipo de discussão, já que a cantada mais relatada na pesquisa era o “inofensivo” linda. Inofensivo? Mesmo? Consigo listar umas cinco situações degradantes que ocorreram comigo e começaram com um ‘linda’.

Que comportamento geral é esse de acreditar que homens precisam validar o bem estar de uma mulher? Que comportamento doentio é esse de não saber diferenciar uma conversa em que se demonstra interesse amoroso de um assédio sexual ou de uma situação degradante? Que tipo de auto-confiança é essa que será colocada “em risco” se você não der sua opinião em voz alta – e talvez com a mão entre as pernas? O nome de tudo isso todo mundo sabe, começa com ma, termina com chismo. Pode vir na forma de desaforo grosseiro e bem direto ou então disfarçado de palavras “fofinhas” em textos como esse, publicado no Globo do Rio. Na Band News, cheguei a ouvir âncoras rindo do resultado da pesquisa e dizendo que é normal. Que faz parte.

Vou te dizer o que faz parte. Faz parte sentar no transporte público e sentir um estranho tocando ligeiramente seu cabelo longo para poder encostar de leve nas suas costas – ou em outras coisas? Faz parte ouvir de um líder religioso que seu jeans e sua camiseta colocam os homens em estado de pecado? Faz parte ir para a balada, ouvir um linda e sentir uma mão rápida no seu traseiro? Dentro da sua saia? Te puxando pelo cabelo? Faz parte estar na porta da festa, ser agarrada por alguém com o dobro do seu tamanho e ninguém conseguir convencer o “engraçadinho inocente” a te soltar? Faz parte estar no meio da rua, um estranho te chamar de linda e te prensar na parede? Faz parte estar no meio da rua, alguém simplesmente te chamar de gostosa, sair correndo e passar a mão por todo seu corpo? E ninguém ao redor fazer absolutamente nada? Faz parte ter que encarar o metrô logo cedo fazendo um verdadeiro malabarismo para que ninguém se encoste em você? Faz parte ficar bêbada, sentar num canto e surgirem desconhecidos querendo colocar a mão na sua perna para cuidar de você (???)? Faz parte tentar convencer (em vão) um homem de que, só por que está bêbada, não significa que queira transar? Faz parte ser perseguida de carro durante 25 minutos por um cara falando obscenidades pela janela para você? Tudo começou com o ‘linda’. Faz parte ouvir um “que delícia” despudorado vindo de alguém com o triplo da sua idade no meio de uma Av. Paulista lotada de gente? Faz parte morrer de vergonha, perder a paciência, mandar um “vai tomar no meio do seu cu” e apertar o passo temendo o que pode acontecer? *

Parece, na verdade, que o que faz parte na vida de uma mulher é ouvir um “linda” inofensivo e ter de se concentrar para ficar agradecida que foi apenas um linda, não um estupro. Não um assédio. Nada, assim, de tão desagradável, sabe, ele nem te tocou, ele só falou de longe.

E essa concentração, vou te dizer, não muda nosso dia para o bem nem para o mal. Ela é apenas mais um esforço. Um esforço que já fazemos no piloto automático. É o mesmo tipo de esforço de quando nos esquivamos no transporte público, de quando trocamos de roupa no alto verão para evitar problemas, de quando vestimos uma camiseta, porque esporte só de top no parque não dá. “Porque aí você estaria pedindo”. É um esforço que cansa, e estamos cansadas.

Sabe, a gente não pede nada. Não pede seu reconhecimento, não pede sua agressão, não pede seu galanteio, não pede sua mão sem ser chamada, não pede sua invasão sem nos conhecer. A gente pede respeito, seja lá qual for nossa roupa, nossa profissão, nosso estado de espírito ou nosso estado etílico.

A gente prefere a sua indiferença ao seu berro desagradável. O seu grito preso na garganta não vai diminuir a sua confiança. Não vai tornar o seu dia mais infeliz. Não vai te impedir de me conhecer melhor. Já o seu grito fora da garganta vai diminuir a minha confiança, vai tirar a minha tranqüilidade, vai me fazer desejar sair bem rápido dali.

Eu não ia escrever esse texto porque twitei bastante, porque facebookei bastante, mas não quero este blog fora da discussão, visto que nos links da semana passada algumas pessoas ainda não tinham visto o resultado dessa pesquisa importante. Daí escrevi. Mas, às vezes as coisas precisam ser práticas como nessas redes sociais. Portanto, vou resumir: se é uma conversa saudável, é paquera. Se é um monólogo em que há o desejo incontrolável de colocar a mão nas calças, é assédio.

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* – relato rápido de situações que ocorreram comigo, com amigas e parentes. E algumas que provavelmente aconteceram com todas nós.

Comentários via Facebook

16 comentários

  1. Chell

    Ótimo texto! Concordo plenamente, esse texto do Globo é ridículo.

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  2. Deiah Oliveira

    Exatamente, Fernanda!
    Acho que não existe uma mulher no mundo que não tenha passado por isso. E aí temos que fingir que tá tudo bem, que é “okay, coisa de homem”…
    É cansativo mesmo, mas é muito mais revoltante.

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  3. Jacque

    Fê, que texto ÓTIMO! Eu também tô bem engasgada com isso, acho que vou escrever! já falei muito e me irritei bastante, mas esse lance de “externar” no blog é importante. Tem que ser mais um texto mesmo, repetitivo.

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  4. Kath

    Nossa, demais cara.

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  5. Débora Braga

    Parabéns, texto muuuito bom!
    É bom ver que as mulheres estão tentando mostrar o que realmente acontece e que nós não gostamos nem um pouco disso. E isso acontece com todas as mulheres, ou vai acontecer, infelizmente.
    Beijos

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  6. Vic

    VRÁ!

    Que texto maravilhoso, Fe. Eu pensei em escrever também, até como uma forma de botar para fora sobre isso. Sabe, a coisa é muito maior do que as pessoas imaginam/deduzem. Não é inocente, é desagradável. Tenho pavor de cantadas nas ruas e acho que esse meu trauma veio de quando eu ainda era uma criança, por volta de uns 9/10 anos e um cara muito mais velho me chamou de princesa enquanto eu passava com a minha prima. Um tempinho dps, um mendigo que ficava vagando pelo meu bairro também ficou me encarando. E eu era uma criança, só que alta, com peito e bunda pq menstruei cedo. E eu não tava vestida de forma sensual (e mesmo se tivesse, ninguém tem esse direito), mas eu era uma CRIANÇA e me vestia como uma. Esse episódio, aparentemente inocente, me persegue até hoje, e trouxe outros problemas para minha vida.

    Uma das coisas que mais me chocaram foi ler vários depoimentos de gente falando “olha isso nunca aconteceu comigo mas sabe pq? pq eu uso roupas normais, não uso decote”. Sério, isso me deixou tão chocada. Os casos mais comuns são de meninas como eu, vc e até essas mesmas que se gabaram de falar que não usam roupa curta/decotada.

    Enfim, toda mulher merece respeito, seja lá o que ela estiver usando e aonde ela está frequentando.

    Responder
    1. Fernanda Pineda

      Vic on 20/09/2013 at 11:31 am said:

      VRÁ!

      Que texto maravilhoso, Fe. Eu pensei em escrever também, até como uma forma de botar para fora sobre isso. Sabe, a coisa é muito maior do que as pessoas imaginam/deduzem. Não é inocente, é desagradável. Tenho pavor de cantadas nas ruas e acho que esse meu trauma veio de quando eu ainda era uma criança, por volta de uns 9/10 anos e um cara muito mais velho me chamou de princesa enquanto eu passava com a minha prima. Um tempinho dps, um mendigo que ficava vagando pelo meu bairro também ficou me encarando. E eu era uma criança, só que alta, com peito e bunda pq menstruei cedo. E eu não tava vestida de forma sensual (e mesmo se tivesse, ninguém tem esse direito), mas eu era uma CRIANÇA e me vestia como uma. Esse episódio, aparentemente inocente, me persegue até hoje, e trouxe outros problemas para minha vida.

      Uma das coisas que mais me chocaram foi ler vários depoimentos de gente falando “olha isso nunca aconteceu comigo mas sabe pq? pq eu uso roupas normais, não uso decote”. Sério, isso me deixou tão chocada. Os casos mais comuns são de meninas como eu, vc e até essas mesmas que se gabaram de falar que não usam roupa curta/decotada.

      Enfim, toda mulher merece respeito, seja lá o que ela estiver usando e aonde ela está frequentando.

      Olha Vic, você tocou num ponto que eu não quis explorar tanto no texto para não gerar “fúria” feminina contra as semelhantes. rs Mas eu realmente não consigo entender como uma pessoa que tem um útero possa se voltar contra mulheres vítimas e dizer esse tipo de absurdo “isso nunca aconteceu comigo porque eu me comporto”. E eu vi isso sendo dito por pessoas esclarecidas, hein?

      É até difícil incluir este tópico no texto, afinal EU TAMBÉM NÃO ME VISTO DE FORMA ~ESPETACULOSA~, mas e se vestisse? Isso invalidaria todo o argumento? NÃO! Uma das formas mais estranhas que fui assediada até hoje foi justamente quando pré-adolescente, assim como você. Vestindo um jeans e uma camiseta folgada e ouvindo bobagem de “autoridade”.

      Só posso dizer que tem é muita sorte quem nunca passou por nada do gênero. Assédio não vê beleza, inteligência, classe social, roupas ou virtudes. Só vê um pedaço de carne e é contra isso que temos que lutar – e tentar conscientizar também.

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  7. Mariana

    Safadeza desse cara que escreveu “Você é muito bonita”. Que safadeza. E tem a sorte de não haver lugar para comentar naquele post, porque…

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    1. Fernanda Pineda

      Mariana on 20/09/2013 at 1:05 pm said:

      Safadeza desse cara que escreveu “Você é muito bonita”. Que safadeza. E tem a sorte de não haver lugar para comentar naquele post, porque…

      acho que ia cair o site de tanto comentário… rs

      Responder
  8. Sybylla

    A melhor resposta que eu já vi para o mimimi masculino e os litros de mal tears foi essa, de uma colega de grupo no Facebook:

    “(…) milhares de mulheres já disseram que não se sentem confortáveis com esse tipo de atitude e ainda assim milhares de homens ficam tentando se justificar de algum jeito. Um pessoa dizer “isso me incomoda, por favor, pare”, não devia ser o suficiente pra vc parar e não continuar ou querer justificar para continuar fazendo? Parece que os homens (heteros ou gays) não entendem que a maioria das mulheres não querem nem precisam ficar recebendo um selo de aprovação de desconhecidos na rua.

    A pergunta que fica é, porque os homens se sentem tão compelidos a ficar querendo dizer para mulheres completamente DESCONHECIDAS que eles acham elas bonitas? E não me diga que é para a satisfação dessas mulheres, porque elas ja deixaram CLARO que elas não curtem esse tipo de coisa.”

    Ao invés de raciocinarem e pensarem, “meu deus, o que estamos fazendo com as mulheres?”, os homens falam “ahhh, larga de ser fresca, vocês gostam”.

    Ou seja, a gente não tem o menor respeito da classe masculina. Não é à toa que eles vivem dizendo que “nós temos que dar o respeito”. Quer dizer que nós temos que fazer alguma coisa para que os homens percebam que somos dignas de respeito. Mas para eles, o respeito é automático.

    A pesquisa só mostrou o nível doentio de machismo que nos cerca. Vi homens que jamais esperei ver dando chilique por causa do resultado da pesquisa. Foi algo que abriu os olhos de muita gente.

    Abraço! :D

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  9. Marília

    Eu passo por isso, de ser chamada de “linda” no trabalho, quase todos os dias. E confesso que nunca reajo, por medo, por vergonha… Mas me sinto tão violada, e por tantos e diversos motivos, mas principalmente porque pra mim ser chamada de linda é algo íntimo, assim como é íntimo me chamarem de “flor”, “querida” ou qualquer outra coisa. Se eu não te conheço, não há intimidade, é algo forçado. Esse é um ponto importante…

    Outro ponto é que, no meu caso, no trabalho, eu não falo nada porque o cara em questão é considerado engraçado, carinhoso, amigo da galera, e chegar no RH ou no meu chefe, e reclamar que eu estou me sentindo incomodada significa ouvir eles dizerem que eu é que sou o problema, que “ele é assim mesmo”, que “é só jeito de falar”, posso até ouvir um “os incomodados que se mudem”. Então a gente aguenta, tem dias que chega em casa chorando, tem dias que dá risada por falta de opção. Mas um dia a gente cansa e bota a boca no mundo, pra vir um babaca como esse do Globo Rio dizer que sou eu quem deve deixar os homens e suas “cantadas inofensivas “em paz? Querido, a gente já te deixa em paz bastante, viu? Saiba ser grato e nos deixe abrir a boca ao menos uma vez.

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  10. Como diabos alguém pode definir para alguém o que uma invasão pessoal representa? Ninguém em sã consciência dá susto em alguém com estresse pós-traumático, ninguém chega por trás, ninguém faz piadinha (ou não deveria fazer).

    O que os pobres mascus parecem ilustrar é como eles estão perdendo o “direito” de traumatizar pessoas das mais diferentes formas. Porque se uma pessoa tem medo de andar pelas ruas e não é de assaltos ou de acidentes, mas sim de qualquer um, existe um terror psicológico criado de uma forma muito, muito cruel.

    Sem contar os super inteligentes que dizem “só mirar na garganta, só carregar uma faca” porque claro, qualquer ser humano que queira ser deixado em paz precisa saber combater. E em muitos casos, precisa estar preparado para matar, porque o “elogiador” não vai curtir sua vítima ameaçando sua superioridade.

    Eu lembro quando era criança, menos de 10 anos, e ouvia o progenitor “elogiar” mulheres em voz alta. E ainda apontando e dizendo pra mim “Olha Stephan que loira mais gostosa!”. Um “elogio”, claro…

    Responder
    1. Fernanda Pineda

      Stêêêphan (@stephanmartins) on 20/09/2013 at 6:27 pm said:

      Como diabos alguém pode definir para alguém o que uma invasão pessoal representa? Ninguém em sã consciência dá susto em alguém com estresse pós-traumático, ninguém chega por trás, ninguém faz piadinha (ou não deveria fazer).

      O que os pobres mascus parecem ilustrar é como eles estão perdendo o “direito” de traumatizar pessoas das mais diferentes formas. Porque se uma pessoa tem medo de andar pelas ruas e não é de assaltos ou de acidentes, mas sim de qualquer um, existe um terror psicológico criado de uma forma muito, muito cruel.

      Sem contar os super inteligentes que dizem “só mirar na garganta, só carregar uma faca” porque claro, qualquer ser humano que queira ser deixado em paz precisa saber combater. E em muitos casos, precisa estar preparado para matar, porque o “elogiador” não vai curtir sua vítima ameaçando sua superioridade.

      Eu lembro quando era criança, menos de 10 anos, e ouvia o progenitor “elogiar” mulheres em voz alta. E ainda apontando e dizendo pra mim “Olha Stephan que loira mais gostosa!”. Um “elogio”, claro…

      Ótimo comentário. E isso aqui, muito bem colocado: “O que os pobres mascus parecem ilustrar é como eles estão perdendo o “direito” de traumatizar pessoas das mais diferentes formas”.

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  11. Fernanda

    Foi o melhor texto até agora sobre o tema. Não falou nada que não tenha acontecido com 150% das mulheres do mundo inteiro. Tá mais que de parabéns, Fê!

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  12. Marcia

    Disse tudo Fer! Achava que era neurastenia minha em me importar com esta imposição maluca dos machos alfa deste país! Obrigada pelo texto.
    Caso não tenha lido, tem um texto mais antigo do Papo de Homem que aborda este assunto:

    http://papodehomem.com.br/como-se-sente-uma-mulher/

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  13. Dan

    Adorei seu texto!!Você falou tudo que uma mulher pensa e tem vontade de falar!

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