O buraco sem fundo

qua

Era uma vez um grande buraco. Uma redonda, gigante, escura e profunda circunferência perfeita que se transformava em cilindro com boca de O e cheia de vazio.  A ausência de arestas nas paredes era um problema: o que se gritava ali, ecoava para sempre até o volume ir aos poucos diminuindo na eternidade.

Com tanto tempo de vida e tantas histórias gritadas pelos muros, o buraco vivia cheio de ecos de todos os tempos, uma mistura de passado, presente e ambições futuras já registradas em antecipação. Porque o buraco não vê a luz do sol faz tempo, perdeu o calendário, não tem um celular e só vê vontade de gritar.

Ali cabia tudo: insatisfação, insegurança, instabilidade, infelicidade, inabilidades adquiridas. Tudo intragável. O buraco aprendeu logo cedo que o momento bom vem e passa, não precisa ser gritado. O que ecoa por ali é sempre o que precisa girar bem alto para quem sabe escapar pela boca do buraco.

Aí ela um dia descobriu o que estava no fundo do poço sem fundo do buraco. Ele tinha um fim, era longe, precisava de um mapa para chegar lá, mas uma vez lá não se podia mais sair. Era o vórtice do buraco, que pedia uma bela faxina. Foi aí que enquanto limpava a fossa do castelo e ia encontrando tanta inutilidade, percebeu que tudo ali era de sua propriedade. Nada dos outros. Tudo seu.

– Como fiz essa bagunça?, pensou a jovem. O buraco não respondeu.

– Alguém pode me ajudar?, novamente. Silêncio.

Enquanto se preparava para mergulhar de cabeça na pilha de imundices, parou de falar e foi pensar em voz baixa. “Tudo aqui sou eu”. Sozinha, prendeu o cabelo e vestiu uma roupa de guerra.

– Só saio quando eu conseguir ver a luz.

Foi ao trabalho e prometeu não fechar mais a porta do buraco.

.

Comentários via Facebook

4 comentários

  1. camila

    belo texto,é pena que não tenha tanta repercussão quanto um look. pensar é mais difícil que consumir coisas bonitas, mas é necessário… ótimo convite a reflexão, Fe!

    Responder
  2. Matheus Mecenas

    Muito lindo esse texto Fê, juro que quando li quase chorei, pois ele era tudo que eu gostaria de expressar nesses últimos dias e não conseguia – parabéns.

    Saudades eternas de você – quando eu aparecer em SP, ia ser o máximo te encontrar.

    Um grande beijo ;*

    Não comento muito, mas seu blog esta sempre nos meus favoritos aqui.

    Responder

Deixe seu comentário