Os 24 e o depois

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Prometeram à minha geração que iríamos abraçar o mundo com os dois braços e com as duas pernas antes dos 25. Com 18, tudo parecia tão perto, com 24 mais longe que nunca.

Olhamos para trás e ficamos imaginando como nossos pais simplesmente fizeram. Eles eram mais novos e casaram, eram mais novos e já tinham a gente, eram mais novos, ganhavam mais. Era foco, determinação ou apenas falta de oportunidade? Às vezes fico vesga com a quantidade de coisas que me foi possível fazer, carreiras em que pude apostar. Nossos pais, não. Com 18 estava definido todo o resto da vida e as distrações eram poucas, menos tecnologias, celulares, redes, opções. Era só no tête-à-tête, olho no olho. As relações, para o bem e para o mal, mais sólidas. Hoje a gente não sabe se o amigo é amigo e interrompemos nossos esforços pra perder tempo tentando pescar qualquer indireta em status.

Tudo é liquido, nada e ninguém se pode segurar e a liberdade de ir e vir sufoca a ponto de não saber, afinal, para onde ir, ou para que ir. Com tantos destinos, a motivação se dilui em todas as direções e a jornada é solitária. Poucos encontram alguém para dar a mão enquanto passeiam no meio da corda bamba. A maioria só serve de torcida, só que apoio moral já basta o dos nossos próprios pais. Nossos pais, esses vencedores que nos deram tudo para agora não termos nada.

A facilidade deve estar na dificuldade e nossa melancolia mimada não nos carrega mais para a escola: apenas nos deixa sentados em escritórios abarrotados com gente que mal conhecemos, com máquinas de café ruim e com telas brilhantes de e-mails que se multiplicam como zumbis. A meta? Zerar ao final do dia.

Disseram que íamos mudar o mundo, mas agora só amanhã.

Carey Mulligan em “Shame” (2011)

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17 comentários

  1. Tuh

    Uau! Esse texto está mais do que incrível… parabéns!!!
    Tenho exatamente esses mesmo pensamentos e indagações. E, na verdade, não lido nada bem com os anos passando. Fico sempre refletindo, refletindo…

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  2. Alyce

    A verdade é que as infinitas possibilidades e o fácil (e rápido, quase instantâneo) acesso á todas elas deixou tudo meio monótono.
    Entediante eu diria.

    Não se dá valor, como se dava antigamente.
    Sempre é pouco, nunca é demais.
    E se esvai as coisas simples da vida que é o que carregavam a graça e o sentido das coisas.

    Hoje em dia não vale a máxima do “eu”, vale a máxima “das pessoas”.
    O que as pessoas vão achar se eu tiver, ser, for isso ou aquilo.

    O eu não importa mais.
    Acabou que nós mesmos nos colocamos em segundo plano para satisfazer o todo.
    Acabou que a graça das coisas simples não fazem mais sentido porque em meio á essa profusão de situações novas que vão nos levar e nos fazer ser algo, as coisas se perderam.

    E eu melancólica e mimadamente reclamo.
    E me julgo também.
    Eu contribui pra isso.

    Lindo texto Fê <3

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  3. mariana graciolli

    Veio em boa hora, antes da crise dos 3o agora vivemos a dos 24…25 anos!
    ainda iremos abraçar o mundo.

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  4. Tati Lopatiuk

    Ai, Fernanda… ?

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  5. Tati Lopatiuk

    (FIz um coração e o site não reconheceu, foi isso? hahaha)

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  6. Juliana

    Sensacional seu texto, Fernanda! Agora aos 27 que estou aprendendo a desapegar dos planos fixos e curtir essa liberdade de escolhas, perceber quando a parte mimada fala e calar a boca dela, encarar de frente as decisões, até por que, nada é para sempre. O melhor jeito de vencer a crise é aceitar e dançar com ela…

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  7. liiz

    amo os seus textos <3

    estou com 22 e ja meio que sinto essa "crise" , é tanta possibilidade, tanta oportunidade, que quando eu olho parece que não to indo pra lugar nenhum, fazendo coisa nenhuma.

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  8. Amanda

    Ótimo texto, parabéns :)! Você está escrevendo cada vez melhor.

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  9. Sara

    Estou com 24 e tenho justamente essa crise… e no nosso caso é ainda pior pq cada vez mais pessoas mais novas e mais talentosas surgem e você fica naquela dúvida se é isso mesmo que você tem que fazer, eu pelo menos fico com a dúvida constante se é isso mesmo que quero fazer. O que vou fazer daqui 5 anos? O que quero ser daqui 5 anos. É de uma aflição sem tamanho se formos pensar no futuro tendo como base nossos pais.

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  10. Camila Santana

    Falta uma semana para os meus 24. E me sinto exatamente assim.

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  11. Larissa

    Eii alguém escreveu o que eu estava pensando e que ultimamente anda me deprimindo bastante!! O engraçado é que vejo as coisas assim nao somente em relação a construção de uma carreira mas tbm nos relacionamentos. Ai ficamos nesse beco sem saída, e ao mesmo tempo em que necessitamos de apoio, de incentivo, surgem cada vez mais cobranças. Só nos resta lutar e torcer para que a gente encontre nosso caminho né? Beijos e parabéns pelo texto!

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  12. Cláu

    texto incrível. valeu, Fê.

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  13. Mari

    Incrível.

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  14. Tany

    Essa semana li um texto em algum blog que eu consegui me relacionar muito bem. Ela falava em como o nosso tempo atrapalha mais do que ajuda. Que nós, aos 25, tinhamos uma idéia do que teríoamos conquistado, que seríamos isso e que seríamos aquilo e essa pressão de conquista, de orgulhar nossos pais, de cumprir nossas expectativas acabavam colocando prazos e pressões em nós mesmos de uma forma que acabavam atrapalhando.
    E que, depois que passa um pouco de tudo isso, quando você vê que não atingiu, que você ainda está no caminho, independente de qual seja, você, quando conquista, por mais “tarde” que possa parecer, talvez só tenha sido na sua hora, sabe? Um resultado de esforço + trabalho + estudo e aí, sim, a recompensa.

    Talvez tenha sido os mesmos com os nossos pais, mas a diferença é que eles não tinham a sorte que nós temos. E nem tanta distração, vamos concordar.

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  15. Fernanda

    Olha, só com muita terapia conseguir deixar essas expectativas que a gente tem de como vai estar com X anos. É estranho, mas acho que os 25 são os novos 18, e no meu caso torço para os 30 serem os 20 :)

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  16. juliana

    perfeito o texto!

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  17. Dani-mi

    Excelente texto! Sintetiza muita coisa sobre a qual (não só eu, mas toda uma geração, percebo) tem refletido.

    Você nem imagima como deu um alívio que alguém conseguiu expressar em palavras o que sinto~

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