Sobre carapuças e estilo para os outros verem

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sendo uma coruja entre humanos

Festivais de música agora são palco também de fenômenos curiosos além da música. Durante o Planeta Terra, vi algo curioso: uma garota fantasiada ao estilo folk de Kate Bosworth no Coachella. E quando digo “fantasiada” não é de uma forma lúdica ou brincalhona como já falei outras vezes aqui. Com a quantidade de fotos que vemos das musinhas em gramados assistindo show de música (seria road trip o novo festival?), acho mais que natural que inspirações aconteçam e que nem sempre isso tenha a ver com o estilo de cada um. Mas dessa vez é sério mesmo.

A cabeça e os pés da garota não tinham a ver com a imagem que ela trazia no meio e o próprio meio se dividia com uma alça de Louis Vuitton de sei lá quando, penduradinha do lado esquerdo. Na hora saquei que aquilo não era ela, era de fato apenas uma fantasia, dosada com uma marca e com um jeito de se comunicar apenas tentando dizer “eu sei a tendência”.

Horas depois, abro o Facebook e encontro comentários do tipo: “parem com a overdose desse festival, já sabemos que vocês estão aí” e outros mil comentários chamando o festival de “encontro dos publicitários moderninhos” e outros adjetivos do gênero, como se ninguém ali gostasse da música e todos estivessem fantasiados para passar adiante um estilo de vida.

Acho engraçado. Acho engraçado que de fato alguns realmente poderiam estar ali prontos para causar uma impressão e às vezes pode até não ser de caso pensado, pode ser apenas uma maneira de esconder a insegurança de estar num lugar diferente. Quem garante que a menina “do folk” não estava ali apenas porque ganhou um convite e tentava  se “encaixar” num lugar que considerava diferente dela? É claro que ela escolheu a forma mais fácil e rápida possível. Outro jeito seria estudar os shows e decorar umas músicas, mas amar algo dá mais trabalho do que estar na moda.

Essa condição de julgamento que se abate a alguns comportamentos modernos e/ou cafonas é muito intensa, e me incluo nisso também, seja reagindo ao comentário no Facebook, seja interpretando a roupa da garota. Este texto inteiro, aliás, é uma reação, mas o que eu quero dizer é que parece que é preciso curtir um caminho sempre seguro para estar, ahn, seguro.

Hoje não se pode curtir uma banda só porque você conheceu pela internet: você é hipster (como se existissem hipsters no Brasil, mas isso é papo pra outro post); não se pode curtir sertanejo: você é cafona. Não se pode usar a roupa moderna: hipster de novo!; não se pode usar vestido colado ou camisa xadrez: piriguete/playboy. E ai de você se curtir uma banda que conheceu online, curtir ir num sertanejo de vez em quando e ainda cultivar uns vestidos de bandagem no armário: vai ser incompreendido em todos os lugares.

O interessante e legal é onde não há erros. É não ser vegetariano, nem bombado: é apenas dar uma corridinha pra manter a saúde. É continuar pagando rios de dinheiro para ir nos shows do U2 e do Guns ‘n Roses sempre que eles vierem ao Brasil ao invés de tentar algo novo. É deixar uma peça de roupa mofar no armário porque não encontrou “ocasião” para usá-la – e desde quando não é você que faz a ocasião, não é mesmo? Tá, vamos apenas perdoar vestidos de gala e fraques. cof cof

Comprei uma calça listrada dia desses e tô nesse balaio do “deixei lá porque não sei onde usar” e fico apenas pensando no apelido de “Beetlejuice” que eu poderia ganhar, tipo no trabalho. Fui largando a oportunidade para uma balada, a coitada da peça vai ficando esquecida e deixo sua “interessância” ir morrendo lentamente no meio dos cabides, apenas porque o interessante gera também interesse às avessas.

De fato. Não escolhi essa calça por ser fantasticamente linda, escolhi pela diferença, pela impressão e porque achei que tinha bolas o suficiente para usá-la sem parecer uma fantasia. Shame on me. No fim das contas, é uma peça tão insegura quanto um vestido curtíssimo que pode dar pinta de algo que você não quer a qualquer momento. É tensão na certa.

Só que… Sabe, o clássico é ótimo, o clássico é bom, mas nem sempre é interessante pra valer. Pode ser apenas falta de opção e é certamente falta de ousadia, seja lá para qual canto for. Por isso, juro que vou me esforçar e faço aqui um pedido: tire você também sua calça listrada do armário, mas tenha a coragem de usá-la até na festa de sertanejo que você tá querendo ir. Ou ouse ir de Planet Girls num festival indie com aquela banda que você adora e ainda não assistiu.

Quanto mais coragem, menos carapuças.

Comentários via Facebook

13 comentários

  1. Tatti

    Ótima reflexão, Fê! Acho que as pessoas fingem que temos cada dia mais liberdade, mas no fundo sentem-se cada vez mais reprimidas! É bem isso: sua roupa vem invariavelmente com um rótulo. Essa semana minha própria irmã me deu uma prova disso quando me chamou de hipster. “Você parece os caras com quem eu fico”, ela disse, se referindo ao fato de eu achar coisas na internet e me vestir do jeito que eu gosto e não com o que está na moda. Eu abandonei o medo há um pouco mais de um ano e resolvi vestir só o que eu gosto: vestidos. Tenho de todo o jeito, cor, estampa! Não me importo quando me chamam de Minnie porque estou usando um vestido vermelho de bolinhas. Esses dias vim pro trabalho com um vestido amarelo e um cardigan roxo. A menina que senta do meu lado me chamou de Restart. Dei risada e nem liguei! Tem um menino da faxina que me chama de joaninha porque teve uma semana que eu vim todos os dias com vestidos diferentes de bolinha (hoje estou de “joaninha verde”, como ele chama). Achei engraçado, apenas. As amigas da minha irmã falam que eu vivo fantasiada, porque tenho vários vestidos estilo anos 50/60. Se eu fosse me importar com cada comentário desses, já teria jogado tudo fora e corrido para a C&A, Renner, Zara, Luigi Bertolli, etc. pra comprar o que as pessoas estão vestindo! Mas acho que aí estaria me traindo. Traindo meus gostos, minha personalidade, meu jeitinho (já diria a Xuxa) para me adequar ao que os outros pensam que eu tenho que ser! Acho que o problema todo está aí, na verdade: é muito difícil hoje para a maioria absoluta das pessoas saber quem elas são. E não dá para a gente achar que isso é fácil, mesmo quando a gente acha que sabe quem é, porque é normal mudarmos de gosto, de opinião, etc. Então, reforço seu pedido: tirem as calças de Beetlejuice do armário, tirem os vestido de Minnie do armário, tire a roupinha da Suelen do armário e vá ser feliz! :)

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  2. Dani Cruz

    Ótimo texto, Fe!
    Eu acho que cada um deveria ter o direito de fazer o que quiser, mas a internet trouxe um enxame de cagação de regra, com o perdão da expressão.
    As pessoas estão sempre pensando que o que elas fazem é melhor do que as outras.
    Isso gera um monte de gente querendo AGRADAR ao invés de ser AUTÊNTICA.

    Muito triste!
    Eu escolho sempre fazer o que me deixa à vontade. Usar roupas estranhas, vir trabalhar de topete e ir num festival com tênis surrado mesmo sabendo que fui encarada dos pés à cabeça por mais da metade das meninas ~~~~superestilosas~~~~~ da àrea VIP.

    Quer saber? Quando desci pro show do Garbage e fiquei pulando no meio da galera, não tinha ali quem me julgasse. Eu estava feliz, curtindo o show de verdade e acima de tudo confortável :)

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  3. Au Sonsin

    Falou tudo!
    Texto tipo de utilidade pública, esse.

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    1. Fernanda Pineda

      Au Sonsin on 25/10/2012 at 1:30 pm said:

      Falou tudo!
      Texto tipo de utilidade pública, esse.

      Obrigada! ;)

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  4. Emily

    eeeita!!! mto bom, Fe!
    Fico lembrando dum show que fui com uma “amiga” e ela ficou tuitando o tempo todo, parece que esquecia de curtir o show… 9e eu lá berrando e choando!rs) Depois fui ler os tweets e olha…ela tava dizendo que o show tava sensacional e tal. Sequer levantou os bracinhos! Como pode?
    Não vou nem falar do quesito modelito, pq ela – impecável- teve o despautério de criticar a minha roupa “confortável demais”. =/

    “Mais coragem, por favor!” ;)

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  5. Jana

    Muuuuito bom!!!
    Olha, uma das coisas que mais me chamou a atenção quando eu morei fora foi como as pessoas tem mais liberdade de se vestir do jeito que querem! Parecia que se vestiam para si mesmos, e não estavam preocupados com o que os outros poderiam pensar. Enquanto estava lá, pensava em como o brasileiro tem medo de se arriscar.

    Mas, chegando aqui no Brasil, percebi que a diferença está mais ligada ao comportamento das pessoas do que à coragem propriamente dita. Percebi, andando com minha família, minhas amigas, etc, o quanto a gente curte julgar, fazer aquele comentário “inocente porém venenoso”, sabe? Acho que é isso que precisa mudar.

    Quando você pára de julgar os outros, pára de julgar a si mesmo.

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  6. Lari

    Bom texto, fê!
    Uma das melhores coisas que fiz na minha vida foi quando ainda era adolescente me mudei para esse mundo onde eu vivo praticamente sozinha. Você me conhece, eu até sei algumas tendencias, mas realmente não me importo com o que tá rolando tanto no mainstream quanto no underground. Sendo como eu sou, ainda existem aqueles que me acusam de ser “hipster”, mas o rótulo preferido mesmo é “estranha”. Achem o que quiserem, se for para rotular, eu me rotulo de ~diferente~.
    Já fui medida de cima abaixo porque fui num show de rock com um vestido florido. Oras, se eu uso um vestido florido no trabalho, na rua, na chuva, na fazenda, porque não no fucking show da banda de rock pesado que eu adoro? Preciso me fantasiar (e o termo que você usou é corretíssimo) de roqueira para justificar minha presença ali?
    Da mesma maneira que eu acho saudável ouvir baboseiras e piadas daqueles que não conseguem compreender o quão incrível é uma calça listrada. Cada piada, cada preconceito, é uma nota de ignorância que no meu mundo não existe.

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  7. Fernanda

    Eu não vejo com maus olhos essa coisa das meninas fazerem dos festivais uma coisa mais pra mostrar o look do dia do que pra curtir a música. Fui ao Terra de blusa cinza mescla e all star velhíssimo (aliás, te vi passando lá!), mas confesso que dei um risinho quando vi uma limda só de bustiê cheio de spikes e sneaker de salto. Não por rir dela, mas por achar divertida aquela montação toda. Vai ver é um pouco de julgamento meu mesmo. Mas, depois de ler seu texto, super me identifiquei com essa coisa de a gente querer usar algo diferente de vez em quando e ficar pensando no que os outros vão pensar, ficar achando que não tem ocasião. Acho que a gente tem meio que uma paranoia de achar que as nossas roupas são melhores que a nossa vida, hahah. Tem um vestido vermelho peplum na Zara que me seduz toda vez que eu o vejo. Tomara que eu tenha coragem de trazê-lo pra casa da próxima vez que eu for lá ;)

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  8. Chell

    Ótimo texto, ótima oportunidade pra pensar. ADOREI!

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    1. Fernanda Pineda

      Chell on 26/10/2012 at 3:32 pm said:

      Ótimo texto, ótima oportunidade pra pensar. ADOREI!

      Obrigada, Chell! ;D

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  9. Paula Pacheco

    Perfeito Fê, tava faltando uma blogueira falar sobre isso, porque a maioria fica fazendo esse tipinho de falso hipster e que só curte coisas legais e onlines, aliás, faça logo o post sobre hipsters no Brasil, ou seria pseudos hipsters? rs Amei!

    Responder
    1. Fernanda Pineda

      Paula Pacheco on 26/10/2012 at 4:20 pm said:

      Perfeito Fê, tava faltando uma blogueira falar sobre isso, porque a maioria fica fazendo esse tipinho de falso hipster e que só curte coisas legais e onlines, aliás, faça logo o post sobre hipsters no Brasil, ou seria pseudos hipsters? rs Amei!

      Ai, é difícil de falar, viu Paula? Mas certamente não há hipster true aqui – se é que eles são true, né? No Brooklyn vi tanta gente se esforçando pra ser legal que finalmente entendi qual é a deles.

      Enquanto aqui as meninas se esforçam pra usarem todas as mesmas clutches e vestidos de bandagem xis, lá eles tentam todos ser diferentes para mostrar que são legais. No fim das contas, o movimento é idiota do mesmo jeito, mas pelo menos parece algo mais “pessoal”.

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