A data de validade da paciência.

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Fazia uma semana que eu não carregava meu ipod. Por algum motivo, eu sempre esquecia, ia ligar o bendito na bolsa e nada… Tela preta pra mim. Só por isso consegui ouvir uma conversinha interessante.


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o último registro da paciência da senhorinha.

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Estava eu no terminal Vila Mariana, onde tomo meu ônibus pra casa depois da aula, e escuto um casal de velhinhos discutindo. A mulher falava alto, e o homem, mais baixo e também cabisbaixo, tentava evitar a conversa. Quando consegui entender meia dúzia de palavras, ouvi isso vindo da senhora:

– Mas você nunca me deu um presente, uma lembrança, nada! E eu vou parar por aí.

Vamos refletir. Um casal de uns 80 anos de idade e uma senhora reclamando a essa altura do campeonato de que nunca recebeu um presente do marido.

Triste? Eu poderia dizer que sim, afinal isso poderia refletir anos de dedicação da esposa para com seu marido/casa/casamento e nenhum tipo de retorno por parte dele. E aqui vamos deixar bem claro que o presente não é simplesmente um presente, mas sim um mimo de reconhecimento. Flores morrem, mas cumprem seu papel antes de murchar, além de não serem o que se pode chamar de caro.

Só que eu não acho triste. Aquele casal tinha grandes chances de já ter completado bodas de ouro e, bem, se até esse ponto você não teve um tantinho assim de tato para conversar com a outra pessoa, ou não teve a coragem necessária para mudar as coisas de cabeça pra baixo, talvez a culpa seja sua. No caso, da senhora. Aí, botar pra fora toda uma mágoa antiga no meio de um lugar público se torna compreensível, já que tira totalmente o direito de resposta do senhorzinho que, sabiamente, não queria chamar atenção.

Tudo bem, ele pode ter se tornado um senhorzinho rabugento, mas há alguns trinta anos, talvez ele não fosse de todo ruim. Se considerarmos que esta mulher de mágoa antiga deve ter sido educada de forma antiga (leia-se: educada para “agüentar”), ela também deve ter recebido instruções suficientes de como dizer as coisas com jeitinho. E podia tê-lo feito.

A paciência do cão que esta senhora ainda tinha há três décadas teria sido fundamental para evitar a cena que eu (e muita gente) viu. Paciência de Madre Teresa que ela já não tem mais, já que ainda por cima tem de tomar conta do marido malandrinho que pula o horário do remédio.

O papo dos dois continuou e, num instante, já estavam lá falando de exames e do tal medicamento esquecido – típico. Em dois palitos, o senhor notou a presença de uma menininha, interrompeu a conversa e puxou papo com ela:

– Quantos anos você tem?
– 6 anos!
– Você já sabe ler e escrever?
– Já!
– Que bonitinha!

E fez um afago na cabeça da garota.

Depois disso, a minha teoria se confirmou. De fato, o senhor não era ranzinza e a situação também não era triste, apenas se tornou cômoda. É claro que ele poderia ser um psicopata ou aqueles tipos que são maravilhosos na rua e aprontam em casa, mas minha imaginação não permitiu pensar tão mal daqueles cabelos brancos simpáticos.

Entrei no ônibus com raiva da mulher, afinal de contas. Ela era a ranzinza. E, cá pra nós, revirar baú a essa altura da vida me parece uma coisa muito feia de se fazer…  Principalmente num terminal de ônibus.
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4 comentários

  1. Alê Ferreira

    Corra enquanto é temp oe se renove até se sentir feliz.
    Esse é meu lema :*

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  2. Denise Lovely

    Pois é…
    Se a pessoa é tão sem amor-próprio e comodista, não adianta reclamar, afinal, tudo o que plantamos, colhemos algum dia. Por ironia do destino e revolta de quem recebe o troco.
    O velhinho não precisa mudar de atitude, até porque, se a velhinha está com ele até hoje, já sabia q o ‘pacote’ era aquele.
    hehehe

    Beijinhhus! ^^

    Ps: Sim, eu falo demais… X}

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  3. Jackeline Aguiar

    e é mais ou mneos assim, algumas pessoas se acomodam e esperarm que tudo que estiver ao redor se compadeça de seu sofrimento, ou então, aguenta tanta coisa e não diz absolutamente nada e um dia explode, manda tudo pros infernos, mas acaba deprimida do mesmo jeito porque não teve o apoio da massa e se sente injustiçada, mas como o povo poderia saber o que se passa com ela?
    Claro que todo mundo tem seus motivos, e na verdade ninguém conhece ninguém, podemos fazer um julgamento superficial, mas nunca saberemos de verdade, contudo guardar mágoa é perigoso, porque um dia, sem mais nem menos, ela vem a tona…
    = )

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  4. Bia..

    Fêer, eu ameei! Caaracaa, soou sua fã (=

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